Quem entra em um SUV ou em uma van atual costuma ficar sentado mais alto, encara telas enormes e passa a depender de câmeras e avisos sonoros. Só que, ao fazer uma conversão ou atravessar uma faixa de pedestres, vem o susto: a sensação é de que quase não se vê nada à frente, ao lado ou atrás do carro. Várias pesquisas agora confirmam esse incômodo - e mostram o tamanho do risco para pedestres e ciclistas.
Como o design automotivo moderno dos SUVs e vans atrapalha a visão
Desde 2019, o ADAC já avaliou mais de 430 modelos recentes e mediu de forma sistemática a visão panorâmica. O balanço é claro: em muitos veículos modernos, o campo de visão direto encolheu de maneira perceptível - sobretudo nos modelos grandes e pesados.
Colunas A largas, carrocerias mais altas e capôs robustos transformam antigos campos de visão em verdadeiras zonas mortas.
Os principais traços de design que pioram a visibilidade são estes:
- Colunas A muito largas: elas aumentam a proteção em colisões, mas bloqueiam áreas inteiras no cruzamento.
- Para-brisas mais inclinados: dão aparência esportiva, porém alongam as colunas e ampliam as áreas encobertas.
- Linha de cintura elevada: a área envidraçada lateral diminui, e crianças ou objetos baixos somem mais rápido do campo de visão.
- Capôs longos e altos: na frente do carro, sobra uma faixa em que pessoas ou bicicletas simplesmente ficam invisíveis.
Para suas medições, o ADAC posiciona uma câmera na altura dos olhos do motorista e, a partir dela, gera uma imagem panorâmica de 360 graus. Assim, é possível calcular quais trechos ficam completamente ocultos por partes da carroceria. A lateral esquerda merece atenção especial, porque é dali que muitas vezes surgem veículos e ciclistas com prioridade.
Em algumas vans e peruas altas, o problema vai ainda mais longe: a linha de cintura bastante elevada se soma a um pequeno vidro triangular, com coluna A dupla e uma barra de reforço. Em termos técnicos, isso parece apenas uma solução de engenharia; na prática, porém, significa que, ao virar à esquerda, um ciclista inteiro pode simplesmente desaparecer.
Onde os carros urbanos pequenos levam vantagem na visibilidade
O curioso é que justamente os minicarros, tão criticados, costumam se sair melhor na análise do ADAC. Modelos como o Seat Mii e o Kia Picanto ganham pontos com para-brisas mais retos, colunas A finas, grandes áreas de vidro e uma linha de cintura mais baixa.
Do ponto de vista do desenho, esses veículos até parecem meio antigos - mas oferecem uma visibilidade que já foi normal. O motorista percebe obstáculos baixos e crianças à frente do carro com muito mais antecedência, e, nas manobras, sobra menos área completamente invisível.
Nos SUVs atuais, a história é diferente. Uma análise do instituto norte-americano IIHS mostra o quanto a faixa da via que o motorista consegue enxergar logo à frente do capô diminuiu. No exemplo do Honda CR-V, o modelo de 1997 permitia ver diretamente 68 por cento da pista nos 10 metros à frente do veículo; no CR-V de 2022, esse índice caiu para 28 por cento. No Chevrolet Suburban, o valor recuou de 56 para 28 por cento no mesmo período.
Quando o banco traseiro encobre tudo
A perda de visão não atinge só a dianteira. No van elétrico Mercedes EQT, o ADAC identificou outro problema: o banco traseiro fica mais alto do que nas versões a combustão. Isso, combinado com uma traseira elevada, reduz bastante a visibilidade para trás.
Objetos ou crianças atrás do carro só aparecem muito tarde no espelho ou no vidro traseiro - ou nem chegam a aparecer.
No dia a dia, isso pesa principalmente ao sair de ré de garagens, vagas ou recuos, além de manobras em ruas estreitas. Quem confia apenas nos espelhos e numa faixa estreita do vidro traseiro pode deixar passar facilmente um patinete infantil, um pedestre ou uma bicicleta se aproximando.
Pontos cegos em cruzamentos: o que as estatísticas mostram
A perda de visão direta não é só um detalhe incômodo para gente exigente. Ela aparece com clareza nos números de acidentes. Segundo análises do ADAC, cerca de 28 por cento dos acidentes fora de áreas urbanas fechadas ocorrem em colisões ao entrar, cruzar ou virar. Mais de 340 pessoas morrem todos os anos na Alemanha, e mais de 7000 ficam gravemente feridas.
O ADAC calcula que cerca de 30 por cento desses acidentes em cruzamentos e conversões acontecem porque um usuário da via com prioridade simplesmente não foi percebido - muitas vezes um ciclista ou uma motocicleta, às vezes um carro vindo da esquerda.
Os dados internacionais seguem a mesma direção. O IIHS, nos Estados Unidos, constatou que, em alguns modelos recentes, a coluna A chega a esconder totalmente pedestres ou ciclistas em cruzamentos. Na faixa crítica logo à frente do carro, em uma área de menos de 10 metros, certos veículos deixam visível apenas um pouco mais de um terço do espaço.
Ao mesmo tempo, nos EUA, os acidentes fatais com pedestres aumentaram cerca de 37 por cento, e os com ciclistas, cerca de 42 por cento. Um estudo belga com 300.000 participantes do trânsito também mostrou que, quando o capô sobe de 80 para 90 centímetros de altura, o risco de um acidente terminar de forma fatal para pedestres, ciclistas ou outros motoristas cresce em cerca de 27 por cento.
Por que capôs altos são especialmente críticos
A organização ambiental Transportes e Meio Ambiente analisou SUVs e picapes com dianteiras extremamente altas. Em alguns casos, uma criança imediatamente à frente do carro simplesmente desapareceu por completo na área morta - mesmo com a posição de dirigir “na altura dos olhos” e sistemas modernos a bordo.
Se você não consegue ver, à frente do carro, se há uma criança em pé, o problema não é de conforto, e sim de segurança, bem na sua linha de visão.
Por isso, especialistas defendem um limite regulatório: a altura do capô deveria ser restrita a no máximo 85 centímetros. O motivo é simples: desde 2010, a altura média já subiu cerca de 7 centímetros e, atualmente, na Europa, gira em torno de 83,8 centímetros. Em paralelo, a participação dos SUVs nos emplacamentos de carros novos saltou de 12 para 56 por cento.
O que os motoristas podem fazer já
Mesmo que boa parte da responsabilidade esteja nas mãos dos fabricantes, o motorista não fica totalmente sem saída. O ADAC recomenda algumas medidas concretas na compra do carro e no uso cotidiano:
Na compra: teste a visão por conta própria, não só a tela
- Sente-se na posição real de uso: ajuste banco, volante e espelhos como se fosse dirigir no dia a dia - e não “só para o test drive”.
- Treine a visão panorâmica: parado, olhe de propósito para a frente, para a diagonal esquerda/direita e para trás. Perceba onde as colunas cortam o campo de visão.
- Coloque pessoas ou objetos no entorno: se der, teste com outra pessoa para ver se ela some do campo de visão ao passar perto da coluna A.
- Varie a altura do assento: pequenos ajustes para cima ou para baixo podem reduzir bastante as áreas encobertas - ou apenas deslocá-las.
No cotidiano: cabeça ativa, olhar não fixo
Quando os limites de projeto já existem, só ajuda mesmo dirigir de forma mais ativa. O clube recomenda movimentos conscientes de cabeça e tronco, principalmente nestas situações:
- antes de virar, deslocar o olhar um pouco para a frente e para trás, “contornando” a coluna;
- em cruzamentos, avançar aos poucos para liberar áreas escondidas;
- ao sair após uma parada, mudar rapidamente o ponto de vista em vez de olhar apenas reto à frente.
Essa técnica parece simples, mas acrescenta informação de forma clara. Muitos motoristas de ônibus experientes fazem isso há anos sem pensar, porque sabem o quanto pode desaparecer dentro dos pontos cegos.
Por que os assistentes não são uma solução milagrosa
Existe ainda outra armadilha: confiar demais na tecnologia. Câmera de ré, visão 360 graus, assistente de frenagem automática - tudo isso transmite a impressão de proteção total. O ADAC alerta com firmeza para não se apoiar apenas nisso.
A visão direta continua sendo o único sistema de segurança que está sempre ativo - sem software, sem sensor, sem item de menu.
As câmeras enxergam apenas determinados ângulos e dependem da limpeza da lente e da qualidade da imagem. Já os assistentes podem ser desligados, interpretar algo errado ou reagir tarde demais. Por isso, o ADAC deliberadamente não leva esses sistemas em conta nas avaliações de visibilidade.
A cobrança à indústria é que a visão panorâmica passe a ser tratada como uma meta de segurança própria, assim como a proteção em colisões. Em especial, o desenho da coluna A deveria ser otimizado para interromper o mínimo possível a principal área de visão do motorista - mesmo que isso exija concessões no estilo.
O que pode mudar no futuro
A discussão sobre visibilidade e altura da carroceria deve ficar ainda mais intensa nos próximos anos. É plausível imaginar regras mais rígidas para:
- altura máxima do capô;
- largura e posição permitidas para as colunas A;
- áreas mínimas para o para-brisa e os vidros laterais.
Ao mesmo tempo, alguns fabricantes trabalham em soluções novas: por exemplo, colunas compostas mais estreitas, que ganham rigidez por meio de materiais especiais ou estruturas internas, em vez de simplesmente engrossar. Também bancos com posição melhor pensada, painéis dianteiros mais baixos e suportes de espelho reposicionados podem abrir novamente os campos de visão sem sacrificar os números de segurança em colisões.
Para o motorista, vale olhar com atenção para dados que muitas vezes ficam escondidos nas letras miúdas: qual é, de fato, a área envidraçada? Em que altura fica a chamada linha de cintura? Quão inclinado é o para-brisa? Quem entende esses termos consegue decidir melhor na próxima compra - e percebe mais cedo, no dia a dia, quando um “carro seguro” na prática está tirando a sua visão.
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